Blindness ou Crônica sobre a Cegueira
Setembro 21, 2008
É estranho falar mas o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, adaptação do livro homônimo do Nobel de Literatura José Saramago e dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, somente começa depois que termina. Pra mim o filme começou quando ultrapassei as portas que limitam a sala escura do cinema em direção ao lado de fora… das trevas à luz…
Tentando fugir aos lugares-comuns, chavões e clichês sobre o filme… digo que enquanto estava na sala escura fiquei impressionado em não me impressionar com a sucessão de cenas… pensei… não pode… deve haver algo… na próxima cena… vai lá… é agora… alguma surpresa… alguma charada… sei lá… mas termina o filme e nada !!!
Logo que sai da sala… num desses shoppings da cidade… é que comecei a assisti-lo de verdade…
Bom… a prmeira impressão que tive… quem são os cegos de verdade…?
Na fila para o pagamento do estacionamento… só ouvia comentários do tipo… Adorei !!!… Fantástico !!! e… nada mais… o melhor comentário que ouvi foi de um casal logo atrás de mim… dizia o rapaz: – Acho que eles voltaram a ver porque tomaram champanhe no final do filme !… foi ótimo !!! Belíssimos cometários !!! Morri de dar risada por dentro !
Tomei o elevador sozinho… cheguei no estacionamento vazio… uma imensidão vazia… assustadoramente vazia… opa… o filme tá ficando mais interessante… deve ser seu clímax drámatico!
Já na avenida em direção a minha casa… fica mais assustado… novamente aquela imensidão vazia… e no rádio… uma velha balada triste no vozeirão do Elvis Presley… trilha sonora ideal… ganharia Oscar !
Foi nesse instante que começo a pensar melhor no enredo…
Porque os cegos protagonistas do filme precisam de uma líder com visão? Precisamos de líderes com visão? Sabemos quando esses líderes possuem visão? Assim como na estória do filme os personagens não tinham certeza disso… afinal a cegueira é completa… é geral… é genial !!!
Logo termina aquela balada depressiva e de súbito a programação da rádio é tomada de assalto por uma terrível “Propaganda Eleitoral” onde ao final o narrador… no mesmo compasso de um narrador de corridas de cavalos… se aligeira pra falar a imensa quantidade de siglas da coligação do candidato…
A cabeça gozou… pensava… pensava… pensava… delirava em orgasmos mentais múltiplos !!!
Líderes cegos pleiteando votos entre a cegueira… corridas de cavalos cegos… e cegos apostadores… eleitores?
Filme tava cada vez melhor !!!
A comida… a sobrevivência… a paixão… o sexo… comecei a pensar em tudo isto !
Como somos cegos !!!!
Não percebemos o que deveríamos perceber!!! Percepção das coisas! Cegueira total!
Até mesmo a traição… só a cometemos (seja nos relacionamentos amorosos ou na política, na religião, na escola, etc.) porque achamos que a cegueira do outro é maior que a nossa! É a incapacidade de ver certas coisas que nos mantém! Que mantém as estruturas!!!
Nisso surge na rádio uma versão muito estranha de Angel do Jimi Hendrix… perfeito… grand finale… tava pertinho de casa já…
Paro em frente ao portão… a casa apagada… a imensidão vazia… sozinho…
Desligo o motor… desligo o rádio… the end… o filme acaba…
Sem créditos finais!